Sr.Fantasma

Capítulo 1

por Alex Saba

COMUNICAÇÃO 

"As condições do canal espaço-temporal, nem sempre estão propícias. É preciso muito conhecimento científico para manter a comunicação. Distúrbios magnéticos e algumas descargas de partículas subatômicas perturbam o canal tornando às vezes inviável qualquer contato, pois a conversão para um padrão conhecido como o Mla-P ou mesmo para CSTN requer uma concentração de energia muito elevada, pode-se até mesmo dizer que violenta. 
Apesar de toda essa dificuldade consegui fechar um bom contato. Não tive condições foi de mante-lo por mais do que 14 Tosnumi. Se pelo menos chegasse a umas 7 Rasho daria para saber mais. 
Acho que hoje será um bom dia para tal, pois todas as condições estão a meu favor, inclusive o fator mais importante: sorte. Espero que ele esteja disponível...” 

DESPERTAR 

5:30 da manhã. Minha tremulante mão tateia na direção do controle em busca do botão que silencie o maldito despertador. Não é a primeira vez que ele toca antes da hora. Muito antes. Talvez uma disfunção minha, pois não me lembro de ter programado nenhum horário para acordar. Preciso prestar mais atenção nessas programações, vez por outra troco fusos e dá nisso. 

"...Talvez eu tenha que me valer de algum artifício não muito digno, como alterar os padrões de tempo dele para obter um resultado satisfatório..." 

O barulho é ensurdecedor. Não, isso é pouco. Indescritível é a melhor descrição. Posso comparar apenas ao cruzamento do uivo de uma cabra selvagem no cio com a sirene de um transatlântico. Infelizmente é o único som capaz de me acordar. Meu sono é muito pesado, mas só pensar em acordar com tal inoportuno barulho deixa meus neurônios em tal estado de preocupação que é mais do que um estímulo para tentar acordar antes do despertador. 

"...Mais de uma vez modifiquei os padrões de contagem de tempo dele e quando finalmente conseguia faze-lo entrar em atividade, perdia o canal. Algum dia ainda vão criar alguma coisa melhor do que isto para comunicação..." 

Na minha idade, não preciso de muitas horas de sono e mesmo ficando acordado até muito tarde, como de hábito, consigo acordar cedo. Nos dias normais, o Sol aos poucos invade o quarto, me fazendo despertar lentamente, com seu calor a acariciar meu velho e - muito - útil corpo. Levanto bem disposto e, mais importante, cedo. Mas quando dou essas mancadas de confundir as coisas, não acionar os Automáticos de Coloração - fazendo com que tudo permaneça na mais profunda escuridão até bem depois do sol aparecer no horizonte - ou informar ao Cérebro o horário correto, é esse horror. Até que quando não há serviço, não me importo - passado o susto da "cabra-selvagem-transatlântico" fica tudo bem - mas nos dias de labuta é terrível começar assim. Fico como que de ressaca durante todo o dia. E a pior ressaca é a de quem não bebe. 

Sei bem o que digo porque sou um alcoólatra e não ponho uma gota de álcool na boca há quase trinta anos. No início foi difícil admitir. Era fácil acordar de manhã e fingir que o dia que começava seria melhor do que o anterior. Fingir que eu não teria uma briga interior para não beber. Mentia para mim mesmo dizendo que era só um gole. Incrível como o copo ficava cada dia mais cheio e eu bebia tudo literalmente de um gole só. Teve um dia que acordei, com uma dor de cabeça terrível e me lembrei o que a havia causado: bebera uma garrafa de “Four Roses” em pequenos goles durante todo o dia anterior. Foi quando pensei - meio sem querer - “é uma merda não conseguir ficar longe da garrafa”. Ao pensar assim foi que me dei conta de que era um alcoólatra. Levantei, fui até o bar, reuni todas as garrafas menos uma, em um saco e coloquei-as no desintegrador. A garrafa que deixei seria um troféu. Símbolo da minha força de vontade e perseverança. Não foi fácil. Várias vezes abria o bar instintivamente e me deparava com aquela garrafa, que nem lacrada estava. Mas não havia ninguém para me controlar, apenas a minha consciência e Deus. Aliás foi ele quem me deu o conselho definitivo, através da Bíblia. Abri-a certo dia por acaso no Salmo 51 de Davi que começa assim: 

“Tende piedade de mim, Senhor, segundo a Vossa misericórdia, segundo a Vossa misericórdia, apagai os meus pecados. Lavai-me totalmente das minhas iniquidades, purificai-me dos meus delitos. Reconheço, de verdade, minhas culpas, o meu pecado está sempre diante de mim...” 

Pode parecer pouco, mas foi o que bastou. Havia tanta verdade imanando das páginas daquele velho livro, que não havia como fechar os olhos. Mesmo com eles fechados ela continuava límpida e clara à minha frente. Foi assim que parei de beber. 

Mas os Automáticos de Coloração - AC para os íntimos - que mencionei agora à pouco, são um sistema interessante que tenho instalado no quarto. Minha casa está abaixo da linha do Equador e o quarto é um dos poucos cômodos da casa virado para o nascente, pois não o quero "aquecido" na hora de deitar. 

O AC é formado por vidros especiais - eletricamente condutivos - que podem ter a sua coloração alterada mediante a passagem de uma fraca corrente elétrica por eles. Uma parede é toda tomada por esses vidros. São ao todo cinco painéis de 1m de largura por 2,5m de altura com aproximadamente 7mm de espessura. Posso programar cada um dos painéis isoladamente o que dá um número infinito de possibilidades. As variações de cores vão do cristal ao opaco. Se por ventura estiver uma noite de lua cheia, posso colocar em Opaco e programar a variação para que esteja próximo a cristal na hora que desejo levantar. A variação é feita segundo a medição da luminescência externa acrescida da variável tempo. Mas as vezes não há Sol e é como se tudo enguiçasse, inclusive eu, pois não noto variação alguma. Acordo atrasado, e vou, literalmente, me arrastando até o escritório. Sempre quando estou com a pior cara do mundo, já tem alguém me chamando em um dos monitores.