Sr.Fantasma

Capítulo 2

por Alex Saba

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL 

Todo os sistemas baseados em tempo - o AC inclusive - estão de uma forma ou de outra conectados ao Observatório de  Greenwich, portanto não há erro e muito menos necessidade de acerto. Conectar diretamente o observatório é algo teórico, pois se fosse acesso direto realmente, seriam necessárias milhões ou bilhões de vias conectadas fisicamente ao Observatório. Não haveria fibra orgânica que suportasse. Para evitar este "engarrafamento" o acesso é hierarquizado de forma piramidal com o Observatório obviamente no topo. A partir dele são feitas as sete conexões efetivas, uma para cada um dos Conselhos. Cada um destes por sua vez, dá acesso às suas próprias sete Presidências que dão acesso às suas sete Coordenadorias. Este processo de ramificação se desdobra até chegar ao Cérebro instalado na residência de cada um dos habitantes do planeta, que por sua vez permite acesso aos aparelhos que se utilizem de marcações temporais. 

Este número bíblico da utilização de oitavas não é utilizado à toa. Há muito ficou provado que, juntamente com o três, é a divisão perfeita. O três é muito utilizado nos conselhos de empresas, onde não existe mais a figura de um único senhor dominante, mas de três conselheiros principais. Já em escala mundial, usa-se o sete pela sua maior amplitude. 

Por sua vez as fibras orgânicas são uma variante - cara - das fibras óticas. São fabricadas a partir da modificação de alguns genes do nervo ótico de um canguru e são 1433 vezes mais eficientes dos que as Fibras Óticas para transmissão de dados. 

MONITORES E PROJEÇÕES 

Não por acaso, possuo no meu escritório, sete monitores espalhados assimetricamente. Três são exclusivos para canais de comunicação e estão conectados à mesma micro-câmera, voltada em minha direção e com um sensor que permite acompanhar meus movimentos. Com esses posso entrar em conferência com até sessenta e quatro pessoas em localidades espalhadas pelo planeta - tal e qual estamos fazendo agora - pois as telas são divisíveis em múltiplos de quatro. Como eles são grandes, em torno de 29”, posso ver bem a todos. Ficam lado a lado cerca de 30cm acima do tampo da mesa, que é larga o bastante para que esses monstrinhos não pareçam que vão cair em cima de mim ou que eu vá ser tragado por eles. 

Gostaria de experimentar os monitores tridimensionais assim que iniciarem as vendas. Os que eu tenho são ótimos, com apenas 1” de profundidade, o que economiza muito espaço - apesar do preço - mas vale a pena. A promessa dos tridimensionais é de que seria possível substituir todos os monitores, por apenas um, com os outros alocados virtualmente - detesto essa palavra - em seu interior. 

Na verdade, apesar de apresentarem-no como sendo um “monitor”, não deixa de ser um “projetor”, pois a idéia principal é a de se ficar “dentro” da imagem gerada. Por um lado isto seria o máximo, mas... Já imaginou o quão terrível será fazer uma simples conferência e ter que suportar o interlocutor como se estivesse "de visita" na casa? Essa idéia não me agrada. Costumo muitas vezes bloquear o canal de imagens, deixando uma tela preta prá quem está do outro lado da linha por não estar dignamente apresentável. Acho uma intrusão desnecessária. Parece coisa de doido, estar em um lugar sem estar lá. Poder ver mas não tocar, apesar de estar interagindo com aquelas imagens. A Propaganda do Futuro - um programa de auditório de muito sucesso que apresenta produtos que só estarão à venda daqui há alguns anos - mostrou uma reportagem onde simulavam um desses monitores: era uma sala de reuniões e as pessoas estavam reunidas em volta da mesa de uma forma convencional, mas cada um encontrava-se em uma região do planeta. Prá mim parecia uma reunião de fantasmas, algo meio mórbido. 

"Gostaria de saber o que ele está fazendo agora! Preocupo-me com ele sozinho. Tem horas em que me parece tão frágil, tão carente. São apenas impressões. Parece haver um outro ser trancafiado no fundo dos seus olhos com os braços abertos, esperando apenas que alguém se chegue - como se isso fosse possível. Mas as suas atitudes são o oposto. Sua auto-suficiência é irritante. Como ele faz sem alguém para se abrir, contar aquele desejo mais secreto? Como ele consegue viver assim? Pai! Porque você não se abre comigo?..." 

Apesar de tudo gostaria de experimentar esse "mundo irreal". Já imaginou ordenar ao Cérebro: "Inicie a reunião!" E as pessoas "materializarem-se" ao meu lado? Ou por outra, quando a coisa não estiver do meu agrado comandar: "Apague a reunião!" - seria de uma total falta de educação, mas quem disse que eu sou uma pessoa sociável? Seria de muita valia em certas horas: aquelas em que é necessário uma maior "presença" para convencer um cliente, pois poderíamos até ter “pessoas irreais”, que nunca existiram, fantasmas, apenas por número ou...bem, para aqueles momentos em que se quer ver alguém. Ora eu sou humano não sou? Vivo só, mas tenho algumas recaídas por companhia, poucas, mas ainda assim algumas. 

"...Ele não parece ser humano. Parece um extropiano ou um transhumanista. Talvez ele seja até o primeiro ou pelo menos um dos primeiros Pós-Humanistas! Essa mania de ser 'o senhor' da situação o levou onde está. O que mais ele irá aprontar? Porque não pode simplesmente se resignar em seguir as determinantes do Conselho?" 

O que ainda atrasa o lançamento de tal tecnologia não é tanto a tridimensionalidade dos “monitores”, mas sim os transmissores de imagem para uso doméstico. Depois dos filmes experimentais em 3D, que careciam do uso de um óculos especial e dos filmes em relevo, os filmes tridimensionais, são algo comum hoje, não com prometida interação física com o filme, mas já bem próximos de uma realidade virtual, apesar deste termo ser usado mais com uma conotação pejorativa. Os custos das câmeras são muito altos. Só os mega estúdios podem se dar ao luxo de possuírem uma e mesmo assim são protegidas por seguros altíssimos e verdadeiros exércitos de seguranças. Seja como for, ou quando for, aguardo ansioso para desfrutar de uma coisa dessas, se é que vou estar vivo para tal. 

Acho graça dos que diziam que o velho disco a laser iria “quebrar” os grandes estúdios. Foram anos de tensão, com produtores que só entendiam de contabilidade brigando para fazer - por tentativa - algo diferente de refilmagem de clássicos. Até que surgiu aquele rapaz, neto de um velho diretor, e se não me engano de nome Francis Ceppeli - ou será Cabola? Bem, algo assim. Foi ele o cara que começou com esta coisa da tridimensionalidade. Todos esperavam algo da Uart Dish, mas foi um independente quem arrasou. Algo inclusive que se tornou comum com o tempo. As grandes e famosas corporações estavam “pesadas” demais para reagir com rapidez aos avanços tecnológicos e as que não quebraram, uniram-se a jovens criadores dando-lhes muito mais do que um bom salário. 

O processo de projeção é teoricamente simples. São cinco projetores dispostos quatro de cada lado da Arena de Projeção, por detrás do público e um por cima, que é o responsável pelo volume, os “retoques” da 3D. Impressionante é a manipulação do espaço da Arena de Projeção para adequa-lo à imagem. Como se pintássemos um tecido preto com tinta branca para podermos projetar os velhos filmes de 70mm domésticos. Segundo se conta, foi o mais arriscado, pois aumentar a densidade ambiente não é um trabalho simples. E o mais fantástico, pelo menos prá mim que estou em uma área diversa da imagem, é o fato de que dois espectadores colocados frente à frente, com a arena de projeção entre eles, tenham a mesma visão de uma cena. Acho isso incrível. No início, a platéia ficava apenas de uma lado, como em um teatro tradicional, pois sem este recurso chamado de “multi-polaridade”, quem estava atrás, veria a parte de trás e isto não era nem um pouco interessante, principalmente para os donos das salas de projeção. 

Com o advento da tridimensionalidade houve uma revolução na indústria cinematográfica. Os grandes estúdios quebraram e trocaram novamente de donos, indo agora parar nas mãos de jovens cinéfilos inovadores, que apostaram inteligentemente no cinema diversão e ao invés de criarem filmes abusando da tridimensionalidade e da multi-polaridade sobre o cotidiário das pessoas como vinha ocorrendo, uniram imagem e música em fantásticos e surreais musicais. Uma beleza. Foi o ressurgimento da 7ª Arte. 

Mas voltando aos meus monitores. Além dos tais para comunicação à longa distância, tenho dois de 14”, lateralmente. Estes menores também se prestam à comunicação, só que interna. Estão conectados à minha própria casa. Um mostra imagens das Micro-câmeras Luminosas instaladas em alguns pontos de luz nos diversos cômodos, enquanto o outro me mostra o exterior, com imagens das câmeras externas. A seleção das imagens das “Luminosas” é feita por simples quatro botões no meu controle remoto. Já as externas são controladas por um pequeno shuttle neste mesmo controle. 

Este controle remoto por sinal é uma pequena maravilha. Ele basta para controlar tudo o que há na casa, das fechaduras e tomadas às facilidades da cozinha. Claro que não é tão vasto quanto o controle principal do Cérebro, mas é bem prático, simples de operar e de um tamanho razoável - 20x10 cm - para uma engenhoca tão cheia de botões. 

O controle principal do Cérebro é mais tradicional. Um painel de teclas que em nada lembra o dos computadores antigos. Não existem combinações malucas de teclas a decorar. É muito básico, como os jogos infantis, e por isso mesmo extremamente funcional. As teclas correspondem diretamente a funções distintas para cada caso de uso. Além desse conjunto, existe um outro grupo de teclas com funções específicas do Cérebro e uma última parte, equivalente a um cubo de 15cm de lado, "holográfica-sensitiva" onde movimentando meus dedos em seu “interior”, posso movimentar objetos nos monitores ou direcionar as câmeras e o Baixinho, meu pequeno serviçal robótico. 

Este controle está geralmente largado em cima da bancada de trabalho e é energizado diretamente pelo Cérebro sem necessidade de uma conexão física visível. Posso leva-lo para qualquer lugar da casa, mas acabo deixando-o sempre lá em cima pois não foi ficar carregando um bagulho prá cima e prá baixo. 

Bom, esqueci de dizer que tenho monitores com as mesmas funções dos de 14” espalhados pela casa, mas com diversos tamanhos, porém nunca superior a 10". O do meu criado mudo - o despertador "bode-transatlantico” - é a única exceção, com apenas 5”. 

Um monitor em especial possui dupla função, pois é um misto de monitor e controle, algo como uma prancheta digital, em cuja tela posso escrever - hábito pouco difundido nos dias de hoje - e ler informações do Cérebro. 

Com toda essa parafernália de monitores, posso saber tudo o que se passa dentro e fora da casa, sem o risco de ser visto. Possuo um controle remoto sobressalente trancado dentro do cofre, pois como estou longe de oficinas de manutenção e há uma certa dificuldade de locomoção até minha casa, não posso correr o risco de ficar sem ele em caso de pane. Trancado como está, posso deixar o pessoal da manutenção doméstica entrar aonde eu quero e mantê-los sob vigilância sem correr o risco de invertermos as posições, facilitando-os a controlarem alguma micro-câmera e me espionarem. Mesmo os entregadores não são dignos de confiança. Repare bem que não sou um velho neurótico, mas é que nos dias de hoje, não se pode confiar em qualquer um. 

Quanto às câmaras externas: além das tradicionais colocadas em pontos estratégicos fixos para monitorar o jardim e os muros que circundam a casa, possuo uma extra bastante interessante. É praticamente independente e utiliza um pequeno mecanismo de aeromodelismo, associado a outro semi-gravitacional. Esta combinação permite excelente mobilidade. A câmera é pequena - pouco maior do que uma bola de ping-pong - e discreta. Pelo seu tamanho, tem um gasto ínfimo de energia. Sua base possui células solares independentes das da casa e não necessitam de manutenção. Nela esta fixado um longo e finíssimo cabo de aço, que a impede de ser levada por algum pequeno animal alado míope que venha a confundi-la com uma suculenta presa ou um ovo. Nos dias de muito vento, a instabilidade da imagem se torna muito forte e então devo mante-la na base sobre a caixa d’água como um periscópio. Com ela posso antever todos os que se aproximam daqui de casa antes mesmo de subirem a estrada da colina que dá acesso aos portões.