A CASA Minha casa foi construída há mais de 200 anos atrás. Quando a comprei não passava de uma velha mansão em ruínas. Passei seis meses dormindo em uma rede na varanda apenas com a luz de uma lâmpada incandescente enquanto acompanhava toda a obra. A casa fica no topo de uma colina, destacando-se na paisagem a partir da última curva da estrada. A outra residência mais próxima fica distante o bastante para que eu possa afirmar não ter vizinhos. Há um belíssimo bosque de árvores milenares à minha volta e a área toda foi transformada em um Parque Nacional, o que afastou qualquer provável interessado pela velha mansão - a não ser este velho louco aqui, não tem velho e nada louco naquele tempo - pois segundo as leis dos Parques, deveria ser mantida toda a arquitetura original. Manter a fachada primitiva implicou em uma criteriosa restauração que me custou quase o mesmo que paguei pelo imóvel todo, incluso o terreno. Quando ficou pronta era outra casa. A pequena torre circular que abriga a escada é de tal leveza na composição, que nem parece sustentar a imensa caixa d’água. A ampla varanda tornou-se o lugar perfeito para a cervejinha do final do dia. Gosto muito dela e o que mais me atrai é não parecer possuir nenhum dos aparatos tecnológico que instalei. Na reforma, foi construída uma nova por dentro. Precisava de muito espaço para a passagem dos cabos necessários ao funcionamento das traquitanas instaladas. Coisas que não eram sequer sonhadas há 200 anos atrás. Da cozinha ao banheiro, dos quartos à salas não sobrou uma parede em pé. Acompanhei cada etapa sem arredar pé. Não dava descanso aos operários, além dos de lei. Não os deixava parar. Só assim para que a reforma pudesse ser feita nos prazos que eu determinara. Uma paisagista foi a responsável pelos jardins, que após ouvir como os queria, definiu o projeto como “inglês-selvagem”. Mas selvagem mesmo foi o caso que mantivemos. Ela, por sinal, era muito engraçada, uma verdadeira dualidade ambulante. No trato social era toda delicada e meiga, até mesmo um pouco tímida. Mas na cama... Meu amigo, na cama a menina delicada se transformava em uma leoa insaciável. Bons tempos da minha juventude. Depois que acabou o serviço - infelizmente - ela quis fixar residência na sua criação, ou seja, na minha casa. Não tive outro jeito senão coloca-la prá correr. Eu não tinha nenhuma intenção matrimonial, opinião totalmente oposta à dela. Mas isso foi há mais de quarenta anos. Eu mudei, e a casa - como se fosse um organismo vivo - também. Procuro trata-la tão bem quanto antes, principalmente agora que não posso sair dela. Tenho pessoas que fazem o serviço prá mim. Não gosto deles e sempre que posso me divirto importunando-os. O ESCRITÓRIO Dos monitores do escritório um fica de frente para todos os outros e é dedicado ao meu trabalho. Possui 35” de dimensão e parece apenas um vidro comum de 1” de espessura quando está desligado, porque é totalmente transparente. Fica por sobre a bancada de trabalho, preso por dois cabos de aço do teto ao chão. Essa estrutura funciona de forma que posso move-lo não só para cima e para baixo, mas também gira-lo sobre seu próprio eixo. É um mecanismo fantástico, porque dá a sensação de que o monitor não tem peso. Mas talvez você esteja um pouco perdido quanto ao meu escritório, não é verdade? Vou tentar dar-lhe uma visão geral antes de mais nada. Aqui não é um ambiente asséptico e sem personalidade, pelo contrário, tenho dificuldade em mantê-lo arrumado, há recortes de celulose por todo o lado; objetos rústicos de artesanato coletados durante minhas viagens e fios, muitos fios. Parecem uma teia que cresce desordenadamente, com vida e vontade própria. Mas vamos começar pelo princípio: assim que a porta se abre, à esquerda está a mesa de trabalho, com os monitores de comunicação. Esta mesa, com 1,20m de largura, tem a forma de um “U”, ficando mais estreita - 60cm - nas duas outras partes. Este “U” fica encostado a uma parede (a da porta), mas fica livre na sua outra perna mais longa, que é minha bancada de trabalho. Não havendo parede nesse lado, tenho uma boa visão dos morros e da Estrada da Colina que chega até à casa, através de portas de madeira, divididas com pequenos quadrados de vidro, que dão acesso à varanda. No espaço de aproximadamente seis metros, existente entre a minha bancada, ou as costas desta e a porta, há um grupo estofado em “L” - daqui à pouco eu mesmo começo a achar que meu escritório se parece com um alfabeto - que serve para tirar um cochilo e até dar uma boa relaxada depois do almoço. Algumas vezes chego mesmo a passar a noite. Neste cômodo não há uma televisão dedicada, deixei isto para uma sala própria, pois é muita maquinaria prá se misturar em um mesmo lugar. Quando quero ver alguma coisa do gênero, basta alternar a função de um dos monitores. À direita da porta, em toda a extensão da parede, estão guardados, meus livros e revistas. Dos novos em fibra sintética e alguns recursos “extras”, aos antigos CD-ROM e os “pré-históricos” - mas nem por isso menos queridos - de papel, os quais são guardados atrás de portas de vidro com temperatura interna rigorosamente controlada pelo Cérebro, a ponto de que assim que se gire um dos fechos das portas para abri-las, a temperatura comece a ser adequada à externa, de forma a não causar impacto nos frágeis livros. Foram muitas as tentativas dos livros e revistas descartáveis. Todas inúteis. Recebidos diretamente por via digital e praticamente no momento em que os fatos aconteciam, não sensibilizaram os leitores. Todo mundo gosta de guardar seus livros, e o sistema - desenvolvido no século passado por Negroponte - só se aplica hoje aos diários de notícias, disponíveis em forma bio-eletrônica, que significa um grande avanço, pois depois de ler no “papel” o que me interessava, é só recicla-lo para usa-lo nas novas notícias do dia seguinte. O artigo em si continua sempre disponível na sede de informações. HAROLDUS A maior vantagem do livro, como é conhecido desde os tempos de Gutemberg, é que se pode coloca-lo embaixo do braço e abstrair da vida por um longo tempo com movimentos simples como um virar de página. Nada ainda conseguiu substituir este prazer solitário. Prazer que se tornou muito maior depois que o romano Haroldus Duranus percebeu o óbvio: “já que as pessoas preferem os livros às telas frias de seus computadores, porque não colocar um computador dentro de cada livro?” Perceberam que sutileza? Claro que isso não é nenhuma novidade hoje e ninguém pára para pensar que dentro de um livro há um computador. Mas o fantástico disso é o que Haroldus imaginou. O pensamento é sempre reverso, ou seja, colocar determinada coisa “dentro” do computador. Apesar do conceito hoje ser habitual, naquela época - não me lembro há quanto tempo isso começou - isso foi uma novidade. Haroldus era um livreiro. Tinha uma bela loja cheia de livros até o teto. Livros de todos os tipos, para todos os gostos. Ninguém conhecia seu gosto pessoal, pois ele conhecia tão bem todos os livros que parecia gostar de tudo. Era uma “traça” como se diria na sua época. Quando começou a receber CD Roms em sua loja, sentiu-se forçado a comprar um computador e o fez. Diferente de antes, as pessoas entravam em sua loja e o viam absorto olhando para aquela tela digital. Alguma coisa o incomodava. Passou meses imerso nos discos prateados. Quando levantou-se, as pessoas esperaram em suspense suas palavras. Ele ficou ali de pé, olhando aquela tela e, mexendo a cabeça como a ter pena de todo aquele aparato, balbuciou: “Isso não é um livro!” Algumas pessoas o aplaudiram. Ele virou-se sem prestar atenção nelas, ou talvez se dando conta de que elas estavam ali e disse a frase que ficou célebre: “Precisamos colocar isso dentro de um livro!” Para espanto da maioria dos seres humanos, vários homens de visão do mundo de negócios captaram a idéia de Haroldus e gastaram fortunas para tornar viável sua frase. Stephen Jobys foi quem conseguiu a maneira mais prática de alterar a interface do computador adequando-a ao limitado formato do livro. O que se conseguiu? Um livro interativo. Mas todo livro não é interativo? Não como os novos livros. Um simples olhar não diferencia um livro de um NovoLivro, mas todo Novo, possui capa dura, pois na contracapa existe uma tela onde o leitor poderá obter muitas informações complementares. Por exemplo: “2001 - Uma odisséia no espaço” de Arthur C. Clarke, foi um dos primeiros NovosLivros e continha a biografia completa do autor, acessível - ou acessável - na ContraTela - como passou a ser conhecida a contra capa. Quando não se compreende o significado de uma palavra, basta sublinha-la - isso mesmo, na própria página - e dar uma olhada na ContraTela, ela traz todas as informações associadas à palavra. O NovoLivro de Arthur fora escolhido por Jobys não só por ser um clássico, mas também por dispor das fortíssimas imagens de Kubrick, permitindo demonstrar qual o alcance da tecnologia desenvolvida. As “gravuras” adquiriam movimento ao serem tocadas. Foram associadas aos trechos pertinentes do livro, as imagens - de alta resolução - do filme. Tudo podia ser impresso, pois a ContraTela possuía sensores de emissão que permitiam enviar dados a uma impressora. Uma edição primorosa. Claro que Jobys teve alguns probleminhas. Primeiro: de que seriam feitos? Celulóide? Plástico? Desenvolveu-se um material sintético e não biodegradável - apesar de inócuo para qualquer ecossistema e facilmente destrutível - chamado simplesmente de Suporte, que possuía a textura de um papel, e feito em três camadas, como um sanduíche, sendo que na do meio ficavam os “circuitos” contendo a “inteligência” do livro. No Suporte era possível escrever, sem danifica-lo e esses escritos podiam ser facilmente apagados - sem marca-lo - e até mesmo imprimir, usando-se um simplíssimo menu na ContraTela. Segundo: as imagens não poderiam ficar em papel ou cartão, tão grosso quanto a ContraTela, pois perderia-se o sentido básico de se ter um livro nas mãos, mas se o papel fosse apenas um pouco mais grosso do que as outras páginas, o sentido seria o mesmo. Daí, a equipe trabalhou desenvolvendo as telas de imagens que ficariam famosas. Lembre-se de que elas sempre mostram uma imagem seja estática ou não. Terceiro: o som, não havia muito espaço, mas a miniaturização estava aí prá isso. Bastou chamar um excelente técnico, alguém com uma capacidade superior à maioria das pessoas para resolver os problemas. Foi a parte mais fácil para Jobys. Bastou que lhe dessem meu número. Hoje, este conceito de Haroldus é adotado sempre que possível. Nossas panelas possuem sensores, nossos fornos nos orientam com as receitas, as pranchetas dos desenhistas são mais do que computadores. Outro dia um senhor - se eu chamei de senhor imagine a idade dele - disse que se lembrava de algo assim. Parece que em uma história em quadrinhos havia um personagem com um relógio onde podia ver e ouvir as pessoas. Talvez Haroldus, que era idoso o bastante para ter lido todos os quadrinhos do século passado, tenha se inspirado com tal idéia, ou talvez esta idéia tenha permanecido adormecida em algum canto oculto do seu cérebro até se tornar necessária. Mas o certo é que ele não ganhou nada com isso, a não ser o crédito. Para ele isso bastava, pois aumentou em muito o movimento de sua livraria e ele não queria nada mais além de viver e morrer - como realmente aconteceu - entre seus livros. |