Sr.Fantasma

Capítulo 4

por Alex Saba

 

ESTANTE

Ainda nas estantes está também minha coleção de “discos”. Mesmo não tendo mais a forma circular, o disco continua sendo chamado assim. Não há como dissocia-lo. O formato redondo foi substituído pelo de um quadrado similar à dos Discos Óticos, que vem fechados dentro de uma embalagem igual à dos pré-históricos disquetes. A mudança tecnológica foi enorme, pois os “discos” atuais são feitos sem partes mecânicas. Se você olhar para um deles, achara que é uma mera pastilha meio fosca de algum plástico. E estará absolutamente certo, só não imagine que não haja nada ali, pois existem muitos gigabytes disponíveis ali dentro. O  formato quadrado, deixava as pessoas à vontade não só pela similaridade que falei antes, mas por ser uma forma geométrica estável. Ambos podiam ser inclusive guardados no mesmo compartimento, estante ou bolsa ou - pior - serem confundidos com um porta copos.

Adoro mexer no som e acessa-lo diretamente. Não gosto de deixar esta tarefa pro Cérebro como preferem alguns. Gosto eu mesmo de ligar os aparelhos e inserir os discos. Todo o meu equipamento, como não podia deixar de ser é “high-end” e valvulado. O preço a pagar por este luxo é astronômico, mas a qualidade é fantástica. Ouvir os grandes clássicos como Mozart, Clapton ou Viola é uma experiência única em uma aparelhagem destas. Ainda mais para um colecionador como eu que, que possui matrizes originais. Infelizmente as válvulas são componentes muito instáveis, pois algumas instalações profissionais poderiam se valer delas, mas os custos de manutenção e o tempo de aquecimento as inviabilizam.

Quanto à esta minha exigência de qualidade sonora, é algo sempre presente em minha vida, levando-me a manter estrita amizade com os fornecedores de equipamento e mais tarde a abraçar e revolucionar minha profissão. Sou um Sonorizador. Trabalho com adequação sonora de ambientes, que vem a ser um dos melhores campos da sociedade atual, com apenas um problema: sou a única pessoa que detém a tecnologia para tal coisa. Daí todos terem que licenciar de mim a tecnologia para implantar a sonorização. O que torna um problema para os outros, não para mim é claro.

COMO SURGIU A SONORIZAÇÃO

É preciso que eu volte um pouco no tempo - o que para alguém da minha idade não é tão fácil - para explicar como surgiu a minha profissão. É engraçado que me lembro mais facilmente do que fiz há 30 anos do que alguma coisa que tenha feito ontem. Acho importante exercitar minha memória mais do que meu corpo. Por isso, quando esqueço algo,  não sossego enquanto não lembrar. Faço o impossível prá não entregar os pontos pois acaba soando como uma vitória do tempo sobre meu corpo. Você poderia dizer que esta é uma guerra perdida e você estaria coberto de razão, mas enquanto este “velho soldado” puder lutar lutará. Não há porque me entregar por estar velho.

Quando há muitas décadas atrás criaram os fatídicos Shopping Centers, só havia a chatíssima música ambiente - que era tão ruim ou pior que “música de elevador”. Como as pessoas começavam a se trancar cada vez mais, fosse pela violência das megalópolis ou pelo clima instável e nada amigável que andou fazendo, elas passavam cada vez mais tempo dentro de casa ou em locais “reconhecidamente seguros” - os shopping. Dentro deles, as pessoas se sentiam seguras, apesar de toda a artificialidade do ambiente. As pessoas gostavam daquela sensação de perfeição. O mundo não é perfeito, mas os shoppings pareciam ser. Tudo arrumado, tudo em seu lugar, mas a onda de violência não os poupou. Primeiro começaram a se especializar em um tipo específico de público, o que gerava segregação. Com isso houve uma divisão social interna aos shoppings, com as áreas de serviço e públicas completamente distintas e afastadas. Um “submundo” interno tornou-se um organismo vivo e independente, gerando indignação e revolta naqueles que “davam” vida a toda a intrincada engrenagem de funcionamento. Como em um motim de um navio, o submundo queria “progredir” e vir à tona. Uma luta muda de classes estava iniciada. Aos poucos e quase imperceptivelmente, a beleza artificial começou a desmoronar. Alguns shoppings específicos para o submundo foram criados e eles eram lucrativos. Muito lucrativos. Ali, tinha-se a impressão de que a violência e a depravação eram também irreais. Mas não eram. O lucro falava mais alto e o número de cassinos e antros das mais terríveis atrocidades e depravações começaram a multiplicar-se de forma assustadora. Quando tudo parecia perdido, quando até os lares pareciam que iriam ser invadidos pela onda de violência, Arthur McDowell saiu-se com uma idéia genial originária da ficção científica: as “Bolhas”.

Já se contaram diversas estórias de “Bolhas” lunares, ou mesmo de campos de força colocados em torno da Terra para protegê-la de ataques interplanetários, este tipo de coisa. O que este cara fez foi tornar este conceito viável, aliando-o simplesmente à estrutura de uma cúpula geodésica. Desta forma se mantinham os serviços de segurança, transporte e saúde, sem que houvesse necessidade de se partir do zero, como era o caso dos shopping. Neles, era necessário criar-se desde o prédio até toda a infra-estrutura, e a segurança. Foi exatamente aí onde tudo deu errado nesses “templos do consumo”.

Com o incrível aumento do número de shopping e a erradicação da corrupção na segurança pública, por impunidade, houve um êxodo dos corruptos para o setor de segurança privada, que se antes já era uma atividade com jeito de máfia, agora era a profissionalização da quadrilha. Tomaram de assalto os frágeis shoppings e “venderam” segurança. Os shopping foram sendo abandonados pelos comerciantes honestos e cada vez mais ocupados por negócios ilícitos e escusos, de drogas a latrocínio, contrabandos de eletrodomésticos, aparelhos industriais, armamentos e o que você pensasse. Havia de tudo...e mais um pouco.

Houve o caso extremo de um shopping que ficou mundialmente famoso quando mudou de nome para as iniciais SDS de Sexo, Drogas e Sac...(bem vocês entenderam) para atrair clientela. Fosse qual fosse sua tara havia sempre uma ótima chance de você satisfazê-la ali.

Mas o tempo também não andava bom. As tempestades alternavam-se com uma freqüência irritante. Sol e chuva, calor e frio. Praticamente não havia mais diferença entre as quatro estações. Desde o final do Século XX, que os países do Hemisfério Sul só conheciam duas estações: verão e inverno. Em períodos muito mais distintos do que hoje. Foi um tempo em que por duas semanas havia um frio intenso e depois um calor louco. Chuva em outra e Sol escaldante na seguinte. As alergias multiplicavam-se. Os médicos faturavam horrores. Prejuízos enormes aconteciam nas plantações, sem falar em ameaças de racionamento. Enfim, a economia era o caos.

O isolamento das pessoas estava sendo notado e preocupava aos sociólogos e urbanistas, pois as pessoas abandonavam não só o convívio social mas como também sua própria cidadania. Elas pagavam muito pela sensação de segurança e não tinham ou estavam perdendo o compromisso com os outros. Como convencer a alguém que o imposto seria útil para outro? Era o fim do Estado Democrático com a divisão das obrigações sociais entre todos. Os ricos pagando para os menos afortunados terem acesso ao básico. Isso estava irremediavelmente comprometido. As pessoas estavam se agrupando de forma perigosa. Pequenas etnias pediam independência e as guerras civis multiplicavam-se. O historiador Eric Hobsbawn profetizou em uma palestra histórica dada em 1994 em Oxford:

“As explosões nacionalistas não devem ser atribuídas a um fenômeno ideológico, muito menos a um ressurgimento de forças há muito suprimidas pelo comunismo, pelo universalismo ocidental ou seja lá que nome lhe dê o jargão autocomplacente dos militantes da identidade política. As novas lutas étnicas são causadas pelo colapso da ordem política, representada pelos Estados, que não respondem mais às demandas da sociedade, e pelo esfacelamento das velhas estruturas de relações sociais. As atrocidades cometidas nas guerras civis são cometidas por uma forma tipicamente contemporânea de classes perigosas, jovens desarraigados entre a puberdade e a idade do casamento, para quem não existem mais regras aceitas ou eficazes e limites de comportamento. A Humanidade está se distanciando perigosamente dos valores do Iluminismo, que fizeram as revoluções democráticas do século XVIII. As diferenças importam mais do que a Igualdade, a Fraternidade é um valor ultrapassado e a Liberdade é boa, mas só para garantir os direitos individuais.”

A Espanha foi o primeiro país a admitir o caos. Seu território tornara-se novamente um complicado “reino” visigótico em luta constante com os vândalos e os povos ibéricos. A saída foi criar um Conselho multi-étnico. Já que parecíamos retornar ao passado mais negro de nossa história, nada como pegar uma das boas idéias de então: o Conselho de Anciãos. Foi uma complicada manobra diplomática, pois todos os líderes, por trás de suas causas nobres, escondem a eterna gula pelo poder.

Aproveitando-se de todo o contexto, Arthur valeu-se do medo e do desejo das pessoas por segurança. Não havia nobreza em seus atos. Ele queria mesmo era faturar, mas ninguém estava mesmo preocupado com os outros. Ele conseguiu autorização para fechar experimentalmente uma vila operária com uma cúpula geodésica. Esta escolha ocorreu porque a classe média tinha medo dos problemas que poderiam advir com o fechamento, do tipo falta de vento, ou se o Sol passaria mesmo pela cúpula bronzeando seus - obesos - corpos à beira das piscinas. Coisas assim. Mas tudo deu certo - ou quase. O resultado da experiência foi o que as pessoas esperavam que fosse. Havia muita ansiedade para que tudo desse certo. Quando o fechamento foi realizado com sucesso, todos sentiram um alívio: havia esperança.

Nas Bolhas, sensores detectavam os carros de serviços públicos e abriam imediatamente as portas, cujo projeto fabuloso do mestre do design Roger Felini, permitia abertura e fechamento numa velocidade nunca vista. Os fechamentos começaram a serem feitos pelos pequenos condomínios, e aos poucos era uma vila que se unia com os vizinhos de forma a conseguir uma redução de custos e de redução em redução, chegou-se ao modelo atual, onde os bairros estão “divididos geodésicamente” como é hábito falar.

Como tudo que envolve uma alta soma de dinheiro - e de lucros - alguns problemas foram mascarados. Ninguém percebeu direito no início, pois estavam entusiasmados demais para reparar. Mas a maioria dos ruídos externos ficava externos mesmos; e os ruídos internos - aprisionados como tudo e todos - não só eram mantidos como amplificados e reverberados. Algo no material das cúpulas, provocava uma sinfonia infernal. Foi um caso grave, pois aconteceu desde a primeira cúpula instalada. Como esta era de pequena dimensões, a abertura dos acessos liberava parte dos sons e até minorava o efeito, mas com o tempo e com o crescer de tamanho das Bolhas, a coisa foi chegando rapidamente a um nível em que as pessoas tiveram que abandonar temporariamente suas casas e o comércio amargou um prejuízo tremendo. É aqui que eu entro nessa história.

A minha idéia era simples e também extraída da ficção. Combater barulho com barulho, mais propriamente, ruído com “anti-ruído”. Matéria versus anti-matéria. Já que as duas não podem existir na mesma dimensão por que uma anula a outra o mesmo princípio é válido para o som. Projetei um pequeno gerador de anti-ruído, que funciona gerando ondas sonoras de fase inversa àquela provocada pelo que seria refletido na cúpula. Funciona exatamente como um espelho. Utilizei uma Célula Silícica capaz de reproduzir o som na mesma velocidade em que ele seria ouvido.

Isto parece impossível e você até me diria que tem que haver um delay (atraso) qualquer. É claro que há. Principalmente se eu for comparar o som que é refletido pela cúpula, mas não é isso que eu faço. Todo o processo se baseia no som gerado e não no som refletido. Por isso quando ele vai ser refletido ele já não existe mais pois o anti-ruído é gerado ao mesmo tempo que a reflexão.

Parece maluquice? E é! A quantidade de cálculos necessários para a instalação do equipamento é um absurdo, pois se houver um erro o anti-ruído elimina o som original antes que as pessoas o ouçam e aí o silêncio seria insuportável. Claro que o Cérebro faz isso rapidamente, mas é que nem mesmo ele poderia saber “o que” calcular. E é por isso que as máquinas ainda não dominaram nosso mundo. Elas são capazes de qualquer coisas, desde que lhes diga o que.

Há muitos anos atrás eu já havia desenvolvido um sistema parecido, mas muito menor; na verdade, de uso pessoal. Eram fones de ouvido, abafadores, para serem usados por trabalhadores de indústrias com nível de ruído acima dos padrões aceitáveis de conforto ambiental. Aparentemente um fone comum com um microfone que captando os ruídos externos gerava um anti-ruído para cancela-lo. Foi um projeto mais simples, porque me interessava o silêncio total, facilmente alcançado com um protótipo da pastilha de silício que uso hoje. Mas este projeto não foi muito bem sucedido porque o silêncio total prejudicava os trabalhadores, que sem ouvir nada, começavam a perceber suas vibrações internas e, não agüentando “sentir” o barulho de respiração ou do seu próprio batimento cardíaco, perdiam o uso da razão. Foi o único caso em que tive que piorar o projeto inicial para não me meter em encrencas. O que lucrei depois da correção, foi suficiente para não ter prejuízo.

Mas no sistema das cúpulas, fiz com cuidado bastante para não sofrer nenhuma perda e poder me tornar um pequeno milionário - pequeno apenas por causa da minha baixa estatura. Nenhuma cúpula pode ser construída sem o meu sistema e ninguém pode fabrica-lo sem a minha autorização. E o melhor é que apenas eu sei como calcular a regulagem de emissão do aparelho. Isto me garante o negócio. Como não preciso sair de casa para nada, se não quiser, e como não tenho a menor intenção de ficar pendurado a centenas de metros com um medidor para coletar dados do ruído das cúpulas, faço isso diretamente daqui, com um sensor que colocado exatamente no fecho de cada cúpula pelos operários que a montam. O Cérebro monitora os milhares de sensores instalados pelo país, e me informa das irregularidades. Claro que há uma margem de erro, mas o sistema está tão desenvolvido que o próprio Cérebro - apesar de ser apenas uma máquina - atua sem a minha interferência direta. Meu trabalho é ler seus relatórios no monitor.