Sr.Fantasma

Capítulo 5

por Alex Saba


TRABALHO PÚBLICO

Mas não foi sempre assim. Antes de me lançar pelo mundo, trabalhei para o Conselho em uma organização governamental. Foi uma porcaria. É muito melhor trabalhar como faço hoje. Presto um serviço e não há um chefe me importunando. Naquele tempo o que me deixava maluco era exatamente a chefia. Alguma coisa atrai os incompetentes para os cargos de chefia no governo. Não sei porque isso. Preciso fazer um estudo sério qualquer dia. Tem que haver alguma ligação. Tinha excelentes colegas, verdadeiros gênios de suas especialidades, e tinha também uns completos imbecis que não sabiam decidir entre 2 + 2 ou 2 x 2. Esses últimos eram aqueles que “galgavam os diversos estágios fazendo uma bela carreira” - conforme me disse um imbecil maior, chefe de chefes, que queria me convencer da importância de se ter ambição no serviço público. Eu achava que estava ali para servir à comunidade menos favorecida e não para satisfazer um ego complexado e mau resolvido. As mulheres então eram terríveis, talvez as piores. Aquelas que buscavam as chefias estavam atrás de se auto afirmarem, ou por serem mau amadas pelos seus homens ou por algum estranho complexo em que achavam difícil de sentirem-se mulheres, aceitarem seu papel de mulher.

Tenho certeza de que não sou um porco-chauvinista, portanto minha opinião é realmente isenta. Não há dúvida que os papéis masculino e o feminino possuem divisões claras no aspecto fundamental do relacionamento do ser humano: o relacionamento íntimo de um homem e uma mulher, ou seja, sexo. Não há como - muito menos porque - impedir. Quando duas pessoas fazem sexo, o macho penetra a fêmea - isso tá parecendo aula de educação sexual, mas essa é uma das formas. “Uma das” porque você pode ter relações de muitas outras maneiras diferentes - nas minhas viagens por aí aprendi coisas que nem eu mesmo acreditaria se viessem me contar. Mas nessa nossa cultura, certas mulheres, sentem-se mal com esta situação de “penetração”, como se tratasse de uma “invasão”. E mais, parecem sentirem inveja do membro masculino. Talvez porque tenham sido criadas com a informação de que “o homem tem e a mulher não”. O que as acaba colocando em uma situação de perpétua carência. Algumas suprem essa carência com filhos, outras através de subterfúgios na vida social - ou insocial - e no trabalho, onde se tornam tão competitivas quanto um homem; tão ranzinzas quanto um homem; tão tapadas quanto um homem - bem não queria chegar a esse ponto, mas é que acho espantoso que tantas décadas já se passaram da queima de sutiãs e até hoje muitas mulheres não perceberam que a beleza de tudo está na diferença. E ainda mais, que o fato do homem colocar o “piu-piu” ali, não a desmerece, muito pelo contrário, a torna verdadeiramente mulher. A mulher de verdade sabe até que é ela quem come, já que - literalmente - é ela que engole.

Essa lição só poderia me ter sido ensinada por uma Mulher - com “M” maiúsculo mesmo - quando eu era apenas um jovem com um promissor futuro pela frente. Ela sabia quem era. Talvez nem eu me conhecesse tão bem como ela, mas a troca entre nós foi muito intensa. Ela me abriu os olhos - talvez não os dois - mas de toda forma abriu um horizonte novo prá mim. Aí deu-se o inevitável: eu precisava seguir minha vida; precisava construir alguma coisa e fui. Se não tivesse ido não tenho a menor idéia do que seria hoje. É um “se” extremamente difícil de ser questionado e avaliado. Não posso me arrepender do que fiz, como na verdade nunca me arrependi de nada que tenha feito. Precisava experimentar o mundo e traçar meu próprio caminho, por mais doloroso que isso pudesse ser.

Até por isso é triste ver as pessoas não saberem assumir seus verdadeiros papéis nesta vida, pois acabam indo descarregar todos os seus traumas e frustrações no trabalho - ou em algum outro inocente. Chegou a um ponto em que a situação tornou-se insustentável. O nível de incompetência era tal que eu me sentia regredindo profissionalmente. Eram muitos inter-relacionamentos, muitas paranóias, frustrações, édipos, eléktras e coisas do gênero. Tudo tão complexo - sem metafísica - que antes que eu tivesse que me consultar com um Froidiano, pulei fora e fui tocar meu próprio negócio, sem nenhuma dor para isso.

Alguns conseguem permanecer adequando-se às rotinas e aos apadrinhamentos; outros ficam se descabelando com sua própria covardia em não “andarem com as próprias pernas”. O mais curioso são os que ficam, porque conseguem se adequar à uma vida dupla, mantendo atividades externas ou paralelas. Isso não é prá mim.

A VOZ DO CÉREBRO E A AMBIENTAÇÃO SONORA

Quase esqueci de falar do sétimo monitor - acho que minha memória não vai bem - que é exatamente o do Cérebro. Como outros existentes no mercado, ele é de 14” com apenas 1½” de espessura. Tem a sua volta um revestimento de borracha espesso, com um pequeno sistema anti-gravitacional. Vários pequenos sensores o fazem permanecer sempre à mesma distância do chão (e é claro do teto) e das paredes. Caso eu lhe dê um chute, ele batera na parede, mas não ficará quicando como uma bola, parando quase que automaticamente.

Este sistema foi baseado no radar dos morcegos, pelo menos foi o que me contou o seu inventor, que era um grande amigo - já falecido. Mas acho mesmo parecido com aquelas cortinas de mola de enrolar, que se você mexesse rápido elas iam até em cima e se devagar você conseguia para-las onde quisesse (teoricamente). O sistema anti-gravitacional é parecido. Se eu mexer o monitor devagar, ele permanece na posição em que o coloco, mas se move-lo muito rápido...bem aí os resultados são imprevisíveis.

As vezes tenho a impressão de que o monitor do Cérebro é um bichinho de estimação daqueles de dondoca, que fica ali parado te olhando. Não que o Cérebro tenha olhos na sua tela, muito menos um olhar, mas é a sensação que importa.

O que mais se assemelham aos seus olhos - ou atuam como tal - são os monitores de 10”, mas quem os controla sou eu, já que deixa-los por conta dos sensores de movimento instalados na casa e acoplados ao Cérebro, trariam um desperdiço de energia que chegaria a ser antipatriótico.

O sistema oral do Cérebro está via de regra desligado. Pode parecer um paradoxo - e na verdade é. Detesto Cérebros que ficam falando o tempo todo. Prefiro deixar uma música no ambiente do que ouvir aquela voz perfeita. Paradoxo porque a voz foi projetada digitalmente por mim, assim como as vozes da maioria dos Cérebros instalados residencialmente.

Você já sabe que sou um Sonorizador, que sou especial, um mestre e que fiquei rico, mas ainda há mais coisas nessa minha profissão. Por falar nisso, nos dias de hoje, muitas profissões foram desativadas e outras revitalizadas. Mas a de Sonorizador continua com seu status imutável. Um Sonorizador convencional, é o responsável por todo o tipo de sons. De uma certa forma, nossa origem remonta aos antigos Sonoplastas do cinema, responsáveis por “fabricar” os sons de um filme. Só que eles trabalhavam com sons previamente gravados.

Nas últimas duas décadas do Século XX, houve o advento dos sintetizadores e samplers e pouco tempo depois começaram a utilizar os últimos no lugar dos gravadores. Já no início do Século XXI, a tecnologia havia se desenvolvido a tal ponto, que podia-se criar sons totalmente novos e incrivelmente familiares. Sons que nunca haviam sido ouvidos por nenhum ser vivo, mas que ao mesmo tempo pareciam ter estado ali o tempo todo. Isto foi fundamental para a criação de sons naturais e é o que chamamos de Ambientação Sonora.

Com o advento das Bolhas, nos tornamos muito importantes, pois da mesma forma que o som não sai, o som não entra e então é necessário criar-se a Ambientação Sonora adequada conforme os desejos da administração da Bolha.

A Ambientação Sonora ou mais simplesmente AS, trata de recriar sons naturais já perdidos ou não encontrados na natureza de uma determinada região. Podemos, e falo assim por sermos uma equipe do qual sou o mentor, criar som do vento numa região onde não haja este tipo de fenômeno ou o crepitar de uma chama para um aquecedor de células solares. Não é simples pois tem que haver uma perfeita sincronia entre o som e a imagem, ou mais adequadamente, a ação.

Em outro campo desta área, crio vozes, ou padrões vocais. Devem ser únicos, da mesma forma como nossas próprias vozes. Podemos imitar uns aos outros, mas possuímos um padrão distinto que nos distingue e identifica. Conhecemos as pessoas, normalmente, pela aparência e pela voz. Não vou entrar em detalhes a respeito das Confirmações Reticulares de Identidade utilizadas pelos Sistemas de Crédito porque são reconhecimentos mecânicos, estou falando aqui da relação entre pessoas. Cada um tem uma voz que faz parte da identidade e do vocabulário de identificação. Sendo assim, quando as fábricas resolveram colocar contato oral nos Cérebros, perceberam que não poderiam usar uma voz digitalizada qualquer. Era necessário que a voz possuísse características únicas, de forma que o proprietário criasse uma identidade com seu Cérebro. Ao mesmo tempo, poderiam colocar opcionais (nos modelos mais caros) onde o feliz proprietário escolheria dentre alguns padrões de voz pré-determinados. De modo que se, por exemplo, ele estivesse carente o Cérebro teria uma voz feminina (se o proprietário fosse homem) ou masculina (se mulher) e seria “consolado” por esta voz. Esses modelos foram chamados de MOV, ou seja, Múltiplas Opções Vocais, mas não fizeram muito sucesso. O que geralmente as pessoas costumam preferir é que seu Cérebro já possua um padrão definido e, é claro único. Alguns gostam que seu Cérebro possua a voz de um ente querido que esteja distante ou já não se encontre mais entre nós. Outros preferem que inicie sua atividade oral lentamente, quase como um bebe, dando-lhes a sensação de que aprende com eles.

Infelizmente até o “profeta” Azimov enganou-se quanto à capacidade de aprendizagem dos cérebros positrônicos, e o que se dá é que este “aprendizado” é apenas simulado.

Os Cérebros são constantemente abastecidos com informações da Rede Mundial, segundo uma programação básica de filtragem. Assim, se você é um corretor da bolsa, o seu Cérebro receberá essas informações e as utilizará conforme programado. Isto funciona para que na sua interação com seu Cérebro, suas consultas sejam senão imediatas, o mais rápidas possíveis. Não que uma consulta fora da rotina à Rede Mundial seja demorada, é uma questão de segundos, mas de toda forma é uma demora. Quando for um assunto fora dos padrões da sua filtragem pessoal o tempo de espera é de segundos, mas não pode haver espera. O mundo inteiro depende das informações que transitam por ali.

Com esta seleção de informações a armazenar, os Cérebros se tornaram muito mais produtivos. Tudo o que você precisa em termos de informação, está ao alcance do seu Cérebro e portanto a apenas um controle vocal de você. No meu caso, por não usar controle vocal, a alguns toques do meu Controle Remoto. Desta forma, não é necessário armazenar no Cérebro da sua residência, nada além daquilo que diz respeito exclusivo a você. E você ainda pode disponibilizar estas informações para a Rede Mundial se quiser, como eu faço com parte do meu trabalho. E é claro que há uma remuneração pelos acessos ao meu Cérebro.